O fim das migrações é uma ameaça à vida selvagem
Por que a abundância de animais e da fauna em geral tem tanta importância? A conservação das migrações em massa preservaria importantes características dos diferentes ecossistemas. Se pudéssemos voltar no tempo em cerca de 200 anos, poderíamos admirar milhares de baleias nadando ao longo de sua rota de migração. Por volta de 150 anos atrás, poderíamos testemunhar bisões preenchendo a vasta pradaria Americana ou bilhões de pombos-passageiros escurecerem o céu por dias a fio. Há apenas algumas décadas podíamos ver um milhão de antílopes-saiga cruzando as planícies da Ásia.
Avançando até os dias de hoje, vemos que a população de baleia corcunda (baleia jubarte) é menor do que 2% de sua população histórica, passando do fantástico número de um milhão e meio para 20.000 exemplares. Apenas 350.000 bisões sobreviveram de uma população que deve ter chegado a 100 milhões; sua percentagem remanescente nem chega a ser uma centena. O antílope-saiga reduziu 95% de sua população em 20 anos, de um milhão de indivíduos para 50.000.
Mas o pombo-passageiro é quem se revela como o mais afetado já que era um dos pássaros mais populosos do mundo e foi extinto há algumas décadas. Esses exemplos ilustram um acontecimento hoje comum: o fenômeno da migração em massa segue o mesmo caminho do pombo-passageiro. De baleias e tartarugas marinhas para insetos e pássaros canoros, de animais ungulados para predadores que os perseguem, as migrações em massa têm diminuído ao redor do mundo. Num artigo publicado na "PLoS Biology", os cientistas David S. Wilcove e Marin Wikelski analisam as conseqüências dessas perdas em grande volume e chamam a atenção sobre a importância de uma nova visão conservacionista com relação aos assediados animais migratórios.
Os autores descrevem quatro razões principais para a grave ameaça que paira sobre a migração em massa: as barreiras criadas pelo Homem (barragens, cercas, e estradas); a destruição dos hábitats; as mudanças climáticas; e a superexploração de inúmeras espécies, fato que se torna especialmente importante no caso dos migrantes oceânicos e de água doce.
Todas essas razões são antropogênicas, mas Wilcove e Wikelski acreditam que aqueles que causaram o fim de grandes migrações também podem salvá-las. Os autores advertem que as grandes migrações mundiais merecem iniciativas conservacionistas em grande escala. Na verdade, eles afirmam que a migração em massa deveria ser protegida da mesma forma do que as espécies ameaçadas de extinção. Mas, diferentemente das espécies ameaçadas, as grandes populações dos animais migrantes devem ser preservadas para que sejam garantidos seus ciclos de vida; no caso da preservação, a realidade é muito diferente já que, se se dispõe de alguns poucos casais saudáveis acasalando, isso pode ser suficiente para a recuperação de toda uma espécie em extinção.
Apesar de não ser exatamente conhecido como cada migração afeta seu ecossistema, os cientistas acreditam que a diminuição de tais migrações altera drasticamente a produtividade de todo um ecossistema, desafiando sua capacidade de fornecer serviços essenciais. Eles mencionam, por exemplo, que o salmão "migrando rio acima, desovando e morrendo, transferem nutrientes do oceano para os rios. Uma parcela desses nutrientes é entregue na forma de fezes, sêmen e ovos do peixe com vida; uma parte maior procede das carcaças dos adultos em decomposição.
O fósforo e o nitrogênio das carcaças auxiliam no crescimento do fitoplâncton e zooplâncton nos rios, que servem de alimento para peixes menores, incluindo os próprios salmões jovens". No entanto, devido ao drástico declínio da população migratória do salmão, os rios do Noroeste dos Estados Unidos recebem apenas de 6 a 7% dos nutrientes que antes recebiam. A redução de nutrientes leva, por fim, a um número menor de salmões na geração seguinte e também a uma menor biomassa.
Não é apenas a migração de uma espécie como a do salmão ou do antílope-saiga que sofre essa redução. "Até mesmo migrações menos iconoclastas mostram sinais de problemas", escrevem os autores. "Observadores de pássaros na América do Norte e Europa, por exemplo, reclamam que a cada primavera um número menor de pássaros canoros retorna de seus locais de inverno, na América Latina e África respectivamente". Wilcove e Wikelski citam um estudo recente sobre pássaros europeus que mostra que os pássaros migratórios sofreram um declínio maior em suas populações do que aquelas espécies de residência fixa. Tais quedas na população tendem a produzir grande impacto nos ecossistemas. Um exemplo, fornecido pelos autores, é a importância dos pássaros migratórios no controle de populações de insetos nas florestas.
Um menor número de aves pode significar numa explosão populacional de insetos, alguns dos quais podem ser prejudiciais às florestas ou áreas rurais próximas. Um estudo de 2005 sobre a extinção do pombo-passageiro revela que a morte deste pássaro causou a prevalência atual da Doença de Lyme. Observando que os carrapatos dos veados, que espalham a Doença de Lyme, e os pombos-passageiros, competem pela mesma fonte de alimento: os frutos do carvalho; os pesquisadores concluíram que a perda dos pombos-passageiros causou um aumento incompreensível na população de carrapatos dos veados devido a um aumento constante nos frutos do carvalho.
Preservar milhares a milhões de indivíduos não será fácil. Os cientistas dizem que salvar essas migrações trará "desafios científicos e sociais únicos" Como alguém pode abordar a preservação da abundância ao invés de se dedicar a salvar elementos cujo número é mínimo? Os autores acreditam que para proteger as migrações serão necessárias diversas ações nos níveis local, nacional, regional e global. As pessoas que estão no poder terão que mudar sua forma de pensar e proteger uma espécie antes que sua população comece a diminuir.
"Se tivermos sucesso, será porque os governos e os indivíduos aprenderem a agir proativamente e em cooperação para abordar os problemas ambientais, e porque criamos uma rede internacional de áreas protegidas que é capaz de salvar e preservar muito da diversidade natural do Planeta", escrevem Wilcove e Wikelski. Ambos os cientistas acreditam que vale a pena gastar energia e fazer os sacrifícios necessários, levando em conta os resultados ecológicos fornecidos por esses movimentos em massa, pela sua importância científica de estudar os mecanismos existentes por trás de tais migrações, e pela perfeita maravilha de tais espetáculos. Estas migrações são um tipo de culminação do potencial da Natureza que uma vez prevaleceu por todo o mundo, e agora sobrevive apenas em poucos escassos lugares anômalos.
Algumas grandes migrações ainda se mantêm. As borboletas ainda atravessam limites internacionais em números surpreendentes. Em Maio, cerca de um milhão de gnús viajam através das planícies da África, fornecendo alimento para muitos dos maiores predadores, de leões a hienas e crocodilos. Os caribus ainda migram, aos milhares, através da tundra do Ártico. E apenas há um ano, uma migração desconhecida foi observada no Sul do Sudão, com mais de um milhão de antílopes, incluindo o cob-comum, o topi, e a gazela Mongalla.
O conservacionista e aventureiro Michael Fay, disse sobre a descoberta: "Essa pode representar a maior migração de grandes animais do Planeta Terra. Eu nunca vi a vida selvagem em tais proporções, nem mesmo sobrevoando sobre as migrações em massa do Parque Serengeti, na Tanzânia".
Apesar de estarem diminuindo, as grandes migrações ainda existem: a descoberta de uma nova migração, contendo um milhão de indivíduos mostra esse fato. Agora com atenção pró-ativa, com grande energia e mediante a cooperação global, tais migrações podem não somente sobreviver, mas prosperar. No futuro, assim como no passado, milhões de baleias, de antílopes-saiga, e até mesmo bisões, poderão se movimentar pelas rotas migratórias, completando seus papéis ecológicos.
Por: Jeremy Hance, membro da ONG Mongabay
Fonte: Revista Eco 21 nº 146